Renault Laguna: só quem sofreu se lembra dele

Sofisticado e muito bem acabado, Renault Laguna nunca decolou no Brasil por conta de problemas elétricos, suspensão frágil e cotação do dólar

RENAULT LAGUNA 1998 PRATA FRENTE E LATERAL
Renault Laguna tinha visual moderno e pacote tecnológico farto, mas também tinha muitos problemas no pacote (Fotos: Renault | Divulgação)
Por Douglas Mendonça
Publicado em 20/06/2026 às 13h00

A Renault estava se consolidando no Brasil. Após a abertura das importações, no início da década de 1990, a marca francesa passou a trazer para o mercado nacional modelos como o Renault 19 e o Renault 21, importados da Argentina, além do simpático Twingo, vindo da França a partir de 1993.

AutoPapo
NÃO FIQUE DE FORA do que acontece de mais importante no mundo sobre rodas!

VEJA TAMBÉM:

Mas a fabricante queria mostrar ao consumidor brasileiro que era capaz de oferecer produtos mais modernos, sofisticados e tecnológicos. Foi com esse objetivo que, em 1996, iniciou a importação do Renault Laguna, modelo lançado na Europa em 1994 para substituir o já envelhecido Renault 21.

Estilo futurista

O Laguna chamava atenção pelo visual futurista para a época. Suas linhas fluidas e aerodinâmicas transmitiam modernidade, enquanto a grande tampa traseira integrava também o vidro, solução que reforçava a personalidade do modelo. Naquele período, tratava-se de um desenho bastante ousado.

RENAULT LAGUNA 1999 PRATA FRENTE E LATERAL
O design do Laguna trazia a escola de estilo dos anos 1990, com desenho limpo, elementos arrendados e suaves

A chegada do Laguna também fazia parte da estratégia da Renault para preparar o consumidor brasileiro para a futura produção nacional da marca, que começaria no fim de 1998. O sedã francês já era um sucesso na Europa e tinha a missão de fortalecer a imagem tecnológica da fabricante no Brasil.

Por aqui, seus principais concorrentes eram o Chevrolet Vectra, o Ford Mondeo e o Volkswagen Passat de origem alemã.

Em termos de preço, o Laguna custava aproximadamente R$ 40 mil. Ficava acima do Vectra, encontrado por cerca de R$ 35 mil, e do Mondeo, vendido na faixa dos R$ 38 mil. Apenas o Passat era mais caro, ultrapassando os R$ 45 mil.

Laguna sofreu com a má reputação dos antecessores

Dentro desse cenário, o francês competia de igual para igual com os rivais. Além do visual diferenciado, oferecia equipamentos pouco comuns na época, como o computador de bordo com mensagens por voz, um recurso que ajudava a reforçar sua imagem tecnológica. Apesar disso, as vendas nunca empolgaram.

Parte da explicação estava na reputação construída pelos Renault 19 e 21. Embora fossem automóveis modernos para sua época, deixaram uma série de reclamações relacionadas à manutenção e à disponibilidade de peças. Ainda que de forma indireta, essa imagem acabava influenciando a percepção do consumidor em relação ao Laguna.

RENAULT LAGUNA 1999 CHUMBO TRASEIRA E LATERAL
Modelo ficou em linha por seis anos e teve fim melancólico no início da década de 2000

A maioria dos exemplares vendidos no Brasil utilizava câmbio manual de cinco marchas. O público nacional ainda demonstrava certa resistência aos câmbios automáticos de quatro velocidades, que muitos consideravam caros de manter e potencialmente problemáticos.

Desde o início, os números de vendas ficaram muito abaixo dos concorrentes. Enquanto o Chevrolet Vectra registrava entre 20 mil e 30 mil unidades por ano, o Laguna normalmente vendia entre 2 mil e 3 mil exemplares anuais.

A situação mudou em 1998, quando a Renault passou a trazer grande parte dos modelos vendidos no Brasil de sua fábrica argentina de Santa Isabel. Embora o preço permanecesse competitivo, muitos consumidores passaram a enxergar o carro de forma diferente. Para alguns, o fato de deixar de ser importado da França reduzia parte de seu apelo e exclusividade.

Dólar foi a pá de cal

Mas o pior ainda estava por vir.

Em 1999, o governo brasileiro abandonou o regime de câmbio controlado e passou a adotar o câmbio flutuante. Em poucos meses, a cotação do dólar saltou de aproximadamente R$ 1,10 para cerca de R$ 1,90.

O impacto sobre os veículos importados foi imediato.

Na prática, um Laguna que custava em torno de R$ 40 mil passou a se aproximar dos R$ 70 mil. O mesmo aconteceu com outros importados, como Mondeo e Passat. Entretanto, o Vectra nacional sofreu reajustes muito mais modestos, tornando-se uma alternativa muito mais atraente para o consumidor brasileiro.

RENAULT LAGUNA 1999 INTERIOR PAINEL
Pacote de conteúdos trazia computador de bordo, com direito a mensagens de voz

O resultado foi devastador para o Laguna. As vendas, que já eram modestas, despencaram para algo próximo de 500 unidades por ano. O modelo passou de um produto de nicho para um automóvel praticamente inviável comercialmente.

Mesmo assim, a Renault manteve o carro no mercado até 2002. Nessa época, porém, a fábrica brasileira já operava a pleno vapor produzindo modelos de grande sucesso, como o Clio e a Scénic. Diante desse cenário, o Laguna transformou-se mais em uma dor de cabeça do que em uma oportunidade de negócios.

No início de 2003, a Renault ainda estudou a importação da segunda geração do modelo. Mais moderna, sofisticada e visualmente atraente, ela tinha potencial para conquistar parte do mercado. Entretanto, o preço final seria tão elevado que o projeto acabou abandonado antes mesmo de começar.

Problemas crônicos

Além das dificuldades comerciais, o Laguna também acumulava reclamações de seus proprietários.

A suspensão de curso curto sofria bastante com a má qualidade das ruas e estradas brasileiras. Era comum ocorrerem batidas secas em buracos, além de desgaste prematuro de buchas, amortecedores e componentes de suspensão.

A caixa de direção também era frequentemente afetada pelos impactos provocados pela buraqueira, exigindo reparos antes do esperado.

RENAULT LAGUNA 1999 PRATA MOVIMENTO
Suspensão de curso curto era um problema nas vias brasileiras, com danos prematuros nas buchas e amortecedores

Outro ponto de reclamação envolvia a parte elétrica. A combinação entre calor, umidade e as características do clima brasileiro acabava provocando falhas em conectores e sensores eletrônicos. Como consequência, o sofisticado computador de bordo frequentemente apresentava informações incorretas ou alertas indevidos, frustrando muitos proprietários.

Na prática, o Laguna acabou sofrendo com uma adaptação insuficiente às condições brasileiras. Entre custos elevados, problemas de manutenção e forte desvalorização no mercado de usados, o modelo jamais conseguiu conquistar a confiança do consumidor.

Hoje, permanece como uma curiosidade interessante da história da Renault no Brasil: um automóvel moderno, tecnológico e à frente de seu tempo, mas que nunca conseguiu transformar suas qualidades em sucesso comercial.

Newsletter
Receba diretamente em seu e-mail notícias, dicas e conteúdos exclusivos que foram destaque no AutoPapo

👍  Curtiu? Apoie nosso trabalho seguindo nossas redes sociais e tenha acesso a conteúdos exclusivos. Não esqueça de comentar e compartilhar.

TikTok TikTok YouTube YouTube Facebook Facebook X X Instagram Instagram
Siga no

Ah, e se você é fã dos áudios do Boris, acompanhe o AutoPapo no YouTube Podcasts:

Podcast - Ouviu na Rádio Podcast - Ouviu na Rádio AutoPapo Podcast AutoPapo Podcast
SOBRE
0 Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Comentários com palavrões e ofensas não serão publicados. Se identificar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Avatar
Deixe um comentário