A viagem dos sonhos que quase virou um pesadelo

"Josias não teve dúvidas e partiu acelerando tudo o que a moderna Harley-Davidson era capaz de dar: passou a trafegar a cerca de 100 milhas por hora"

Por Douglas Mendonça 26/08/19 às 21h35
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Esse “causo” é um fato ocorrido logo no início dos anos 2000. Os personagens foram meu grande amigo, o consagrado jornalista Josias Silveira, uma moto Harley-Davidson, um xerife norte-americano e sua potente e ruidosa viatura. O cenário era a famosa Rota 66.

Tudo aconteceu lá pelas bandas da costa oeste dos Estados Unidos. É um desses causos que, ao mesmo tempo, provocam preocupação com a vida humana, correria dignas dos filmes americanos pelas estradas e muitas gargalhadas no final.

Josias, além de um respeitado jornalista do mundo dos carros e das motos, também é chegado nessas aventuras motociclísticas. Nesse causo, ele tinha recebido o convite de uma agência de turismo que promovia passeios com motos Harley-Davidson pela Rota 66, rodovia que ficou famosa por sair de Chicago e chegar até Santa Mônica, em Los Angeles.

Um verdadeiro sonho: sobre uma moto tipicamente americana, seguir por uma das mais conhecidas estradas dos EUA até Los Angeles. Um passeio inesquecível.

Nesse grupo heterogêneo, havia homens e mulheres de todas as idades, totalizando cerca de 15 motos, com um casal ocupando cada moto. Josias, que viajava só, tinha a função de ir atrás desse comboio, bem separado, para dar assistência a algum motociclista que tivesse problema mecânico com sua moto ou sofresse algum tipo de acidente.

Como, atualmente, a Rota 66 não é mais uma estrada única, pois restou dela apenas alguns trechos, o grupo saía de Los Angeles, percorria alguns segmentos da famosa rota e depois retornava ao ponto de saída pela rodovia que cruza o famoso Vale da Morte, uma região desértica, toda de sal e que se encontra 600 metros abaixo do nível do mar. Segundo Josias, uma energia horrível marcava essa rodovia.

Harley-Davidson na Rota 66

Não deu outra! Rodando bons metros atrás do último motociclista do grupo, que estava acompanhado da namorada, Josias viu quando ele perdeu o controle de sua moto (talvez tivesse cochilado), saiu da estrada e bateu forte em um obstáculo, o que fez com que ele e a namorada fizessem um pequeno voo antes de caírem ao chão.

Pronto, a confusão estava formada! O senhor que pilotava a moto teve apenas pequenas escoriações, mas sua namorada não teve a mesma sorte: havia suspeitas de uma trinca na coluna cervical e, por isso, ela só poderia ser removida por pessoas especializadas.

Nosso amigo jornalista, que se comunicava com o grupo por meio do rádio do celular Nextel, relatou o acidente e, imediatamente, os organizadores da aventura motociclística pediram socorro às autoridades da região.

Um helicóptero foi designado para prestar o socorro imediato, mas um problema o impedia de chegar ao local do acidente: uma tempestade de areia não permitia ao helicóptero sobrevoar a região. Então, uma ambulância foi designada para levar a vítima do local do acidente até o helicóptero, distante cerca de 70 km.

Josias, para tentar apressar o socorro, partiu em velocidade rumo à pequena cidade onde estava o helicóptero, para tentar trazer a ambulância mais rapidamente. Ao chegar a cidade, cruzou com o carro do xerife e a tal ambulância. Explicou a eles o ocorrido e a autoridade policial da pequena cidade pediu para que ele os levasse ao local onde estava a vítima.

Acelerando a Harley-Davidson na Rota 66… E o xerife atrás

Josias não teve dúvidas e partiu acelerando tudo o que a moderna Harley-Davidson era capaz de dar: passou a trafegar na Rota 66 a cerca de 100 milhas por hora (pouco mais de 160 km/h). O carro do xerife ia atrás com a sirene e as luzes piscando, e a ambulância acompanhando essa doideira em alta velocidade. Uma loucura!

Em pouco tempo já estavam no local do acidente, e a vítima foi corretamente imobilizada para ser colocada na ambulância. Nesse momento é que aconteceu o inusitado: o velho xerife, com seu tradicional chapéu tipo cowboy, chamou Josias para uma conversa e foi logo dizendo: “O senhor tem consciência de que andou na frente de uma viatura de polícia com a sirene ligada e as luzes piscando a mais de 160 km/h, sendo que o limite dessa estrada é de pouco mais de 90 km/h?”.

Inicialmente, Josias pensou tratar-se de uma piada, uma brincadeira de mau gosto. Mas, vendo a seriedade com que o velho xerife tratava o assunto, começou a ficar preocupado.

E o policial disse mais: “Não posso permitir que alguém ande na frente de minha viatura, na minha cara, em excesso de velocidade sem nenhuma punição. Por isso, vou deter o senhor e a motocicleta, e levá-lo a presença do juiz, onde o senhor deverá se explicar”.

Josias contra-argumentou: “Mas o senhor tem que entender que estávamos em uma missão humanitária e que o salvamento de uma vida humana se sobrepõe ao excesso de velocidade que pratiquei. Quanto antes chegássemos à vítima, menor seria o risco de ela morrer. É isso que estávamos fazendo!”.

O xerife pensou muito a respeito dos argumentos muito bem colocados por Josias e, depois de algum tempo refletindo, resolveu perdoá-lo por andar a 160 km/h na frente do carro de polícia com as sirenes ligadas. No fim, acabaram se entendendo e deram boas risadas sobre o assunto.

A brasileira ferida? Ficou internada em um bom hospital em Los Angeles por cerca de 15 dias. O “tombaço” que levou da moto não trouxe nenhuma sequela, e ela voltou a andar novamente, apesar de sentir formigamentos na perna logo após o acidente.

Um final feliz: nem o Josias nem a sua moto foram presos, e nossa sortuda brasileira teve de volta a integridade de sua saúde.

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2 Comentários
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    Guilehrme Motorelax 28 de agosto de 2019

    Ah! Causo delicioso, inusitado, bacana demais de ler. Histórias para a vida todo que esse nosso mundo do motociclismo proporciona! Parabéns pelo texto, Douglas!
    Grande abraço

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    Adriano Pereira 27 de agosto de 2019

    Acredito que esse causo tenha ocorrido, mas não na rota 66, pois conheço bem a região e inclusive já viagem tanto a route 66, quanto outras estradas. Pela descrição feita no causo, possivelmente estavam na US 95, uma estrada que liga Las Vegas à Reno. Só para ter uma ideia a route 66 não passa nem perto do Death Valley, o mais perto é a cerca de 370 KM. Na verdade o legal do causo é a enquadrada dada pelo Xerife.

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