Stock Car: 40 anos de propaganda enganosa

A mais importante categoria do automobilismo brasileiro conquistou o podium com o título de a maior mentira publicitária do país.

Por Boris Feldman 01/06/19 às 09h00

No começo eram só Opalas, mas com Opala de verdade: foi como a Stock Car começou  em 1979, com organização e patrocínio da General Motors. Nos anos seguintes ele foi substituído por Omega, Vectra, Astra, Sonic e Cruze.

Mas os carros portando componentes originais não duraram muito: a demanda por maior performance e segurança acabou mudando o regulamento e permitiu que o motor Chevrolet 4.100 (do Opala, seis cilindros) desse lugar a um V8 importado dos EUA. Depois vieram novas caixas de marchas, suspensão, freios, direção até que a carroceria veio montada sobre um chassis tubular, exatamente como num carro de corrida.

A partir de 2003 começam modificações mais radicais na categoria, que perde a organização da própria GM para a Vicar e incentiva a participação de outras marcas: vieram a Peugeot com o sedã 306, Mitsubishi optou pelo Lancer e a Volkswagen decidiu pelo Bora. Que recebiam a mesma carroceria de plástico sobre exatamente a mesma mecânica que não tinha sequer um parafuso da fábrica: ela apenas ostentava seu logo na grade.

Mas o equilíbrio entre competidores tornou a Stock Car a categoria de maior competitividade, disputada palmo a palmo, que apaixonava a torcida e atraiu os melhores pilotos brasileiros. Além de autódromos cheios para vibrar com os velozes e furiosos,  a televisão transmitia as corridas e os pegas entusiasmavam milhões de torcedores.

A verdade sobre a Stock Car jamais foi divulgada, incentivando assim o público a torcer para a “sua” marca.

Em 2008, a Peugeot foi além, lustrou sua cara de pau e atacou de propaganda enganosa com anúncios de páginas inteiras nos jornais para destacar o sucesso de um Stock Car “fantasiado” de Peugeot 307. O anúncio:

“A Peugeot foi a grande vencedora da etapa de Brasília da Stock Car. Esse resultado é a união do talento e ousadia do piloto Ricardo Maurício com o desempenho e  a confiabilidade do Peugeot 307 Sedan, um carro vencedor tanto nas pistas quanto nas ruas”. Ao lado, a foto do automóvel com o logotipo do leão na grade. Uma respeitável e inequívoca mentira.

Os marqueteiros norte-americanos dizem “Win Sunday, sell Monday” ou seja, vence no domingo, vende na segunda-feira. No caso da Peugeot, “Win Sunday, lie Monday” (Vence domingo, mente na segunda).

Depois que Volkswagen, Mitsubishi e Peugeot largaram a categoria, a GM voltou a investir pesado (2017) e todos os competidores correm com o mesmo carro, com carroceria em fibra de vidro semelhante ao Cruze e gravatinha borboleta da Chevrolet na grade.

Único componente original são os plásticos das lanternas traseiras. Nem mesmo os faróis são verdadeiros, apenas pintados na carroceria. O motor é V8 importado dos EUA com 550 cv, 5,7 litros e o carro pesa apenas 1.320 kg.

stock car: carros de corrida são 'bolhas'

O público continua prestigiando a Stock Car e se impressiona com o desempenho do Cruze “preparado” para competição. Não faz a menor ideia de estar torcendo para um autêntico carro de corrida disfarçado de Chevrolet Cruze, fabricado com componentes de alto custo e tecnologia desenvolvida por equipes especializadas em competições.

A categoria é, sem dúvida, a mais importante do automobilismo brasileiro e reúne pilotos famosos como Rubens Barichello, Ingo Hoffman, Paulo Gomes, Chico Serra, Cacá Bueno e várias outras “feras” das pistas. Conta com patrocínios de poderosas empresas como a Ipiranga, Petrobras, Pirelli e de outros setores como o farmacêutico, por exemplo, devido à sua grande visibilidade.

O que se questiona na Stock Car é a desnecessária presença da GM (ou de qualquer outra marca) para iludir o público. Tanto a marca da gravatinha como a própria categoria são suficientemente fortes e não precisam se expor a um expediente duvidoso e condenável como este.

Foto Chevrolet | Divulgação

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6 Comentários
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    José Guilherme Guimarães Santos 8 de julho de 2019

    Os motores V8 americanos deram vida nova à Stock car – os opalas e outros modelos estavam cansados, precisavam de maior desempenho, o que o velho 4.100 não propiciava mais. Particularmente, penso eu, a Stock criou musculatura e é uma categoria de respeito – com relação à GM, é uma questão de antiguidade, acho. Melhor que a Stock car só a formula Indy – a fórmula 1 perdeu a graça, continua rica e poderosa mas, sem esplendor.

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    Fabiano Negreiros 2 de junho de 2019

    Gente o que o Bóris quis dizer que aqueles que não acompanham a StockCar assiduamente pode sim se sentir enganados, como foi o exemplo da Peugeot. Sem dúvida eu prefiro a OldStock com os bons e velhos opalões do que esses carros de laboratórios.

    Quem gosta de carro gosta de ver peças mecânicas sendo exigidas ao máximo com o máximo desempenho e sabedoria humana, os carros de hoje parecem ter saídos de um jogo de videogame, até o volante parece um mega joystick, Bóris concordo contigo, perdeu o charme.

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    Carlos 1 de junho de 2019

    Muito sem graça, ainda mais com propaganda enganosa.

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    Maxx 1 de junho de 2019

    Se vc só percebeu agora q os carros da Stock Car são de chassii tubular e não um Cruiser de rua então nem deveria estar escrevendo sobre carros. Isso entretanto não quebra a magia da competição e dos motores barulhentos. E claro q as fabricantes precisam por lá pelo menos a aparência do querem vender

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    Maxx 1 de junho de 2019

    Se vc só percebeu agora os carros da Stock Car são de Sachi tubular e não um Cruiser de rua então nem deveria estar escrevendo sobre carros. Isso entretanto não quebra a magia da competição e dos motores barulhentos. E claro q as fabricantes precisam por lá pelo menos a aparência do querem vender

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    H.Slongo 1 de junho de 2019

    Com todo respeito à sua matéria, mas acompanho a StockCar há pelo menos 15 anos e nunca foi segredo que os carros não são os originais. Aliás, não precisa entender de carro pra perceber que ali tem apenas uma carenagem com o design do patrocinador. Concordo apenas quando cida a propaganda da Peugeot: isso sim é propaganda enganosa.

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