Os últimos não serão os primeiros

Brasil sem chance de – tão cedo – aplicar tecnologia de última geração para tornar o trânsito rodoviário mais fluido e seguro

Por Boris Feldman10/08/19 às 09h00

Quando morrem 200 passageiros num acidente com um Boeing, a imprensa faz escândalo, é prato cheio para jornal, rádio, TV e internet. A responsabilidade será apurada, a companhia aérea e o fabricante do avião são chamados às falas. As autoridades aeronáuticas são questionadas. Mas o Brasil não se importa com os acidentes de trânsito que matam dezenas de milhares de brasileiros todo ano – cerca de 100 mortos diariamente. Um Boeing lotado despencando a cada dois dias.

As estatísticas indicam cerca de 40 mil mortos anualmente. E são contestadas: o número é maior pois não se computam os óbitos ocorridos horas ou dias depois do acidente. A carnificina tornou-se corriqueira e não merece atenção da imprensa nem das autoridades.

A ONU estabeleceu uma meta para se reduzir no mundo pelo menos 50% das mortes no trânsito no decênio de 2011 a 2020. O Ministério da Saúde no Brasil respondeu ao desafio lançando o Projeto Vida no Trânsito (PVT), com foco na sinalização, velocidade, criação de ciclovias e atenção a outros fatores de riscos. O projeto foi implantado em várias capitais e outras cidades com mais de um milhão de habitantes.

O resultado? Quase nenhum: a única cidade digna de nota, que se preocupou com o assunto, estabeleceu um programa objetivo, bem planejado e bateu a meta estabelecida pela ONU foi Salvador (BA).

Aliás, o governo que assumiu em janeiro de 2019 foi o que mais tocou no assunto de trânsito: ameaçou eliminar radares, alterar a pontuação dos prontuários, validade da CNH, simuladores em autoescolas, alterar placas, deu palpite (errado) a torto e a direito. Pura incontinência verbal que só traz desgaste ao próprio.

Os anteriores não foram muito melhores, pois só fizeram publicar decretos e resoluções exigindo mais equipamentos de segurança e sofisticação eletrônica nos automóveis. Mas incapazes sequer de regulamentar a cadeirinha nas… vans escolares, que comprovadamente reduzem mortes e ferimentos graves nas crianças.

Estradas em frangalhos

Nada fizeram de concreto além de publicar decretos e resoluções. Não percebi nenhuma movimentação este ano (nem nos anteriores) para melhorar nosso sistema viário. Não vi recapeamento de asfalto, modernização da sinalização, drenagem de águas pluviais, novos acostamentos, duplicação de rodovias supermovimentadas, construção ou alargamento de viadutos, instalação de guard-rails eficientes, nada disso.

A rigor, interesse do administrador público federal ou estadual em realizar obras rodoviárias vai geralmente ocupar mais tarde espaço da imprensa pois propiciaram super-faturamentos gigantescos, propinas milionárias em contas no exterior e outras maracutaias às custas dos cofres públicos.

A malha rodoviária federal está em frangalhos, praticamente sem manutenção há anos. E as consequências são óbvias: buraco na pista provoca acidentes, encarece a manutenção, aumenta o tempo do transporte, consumo e emissões.

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Foto: Marcelo Pinto | APlateia

A fiscalização é mais que precária, quase inexistente e seus quadros não são ampliados também há anos.  Os poucos policiais são verdadeiros heróis e fazem o que podem apesar da falta de equipamentos, viaturas, condições mínimas de trabalho.

Este descaso do governo brasileiro nos deixa cada vez mais distantes da possibilidade de revertermos as estatísticas que nos colocam no pódio de acidentes de trânsito e entre os últimos na lista de países que poderiam receber novas tecnologias para aumentar a segurança rodoviária. Segundo a KPMG, de 2017 para 2018, caiu do 17º para 21º lugar.

Existem dezenas de novas empresas no mundo desenvolvendo softwares sofisticados para controle eletrônico do tráfego, sinalização inteligente nas rodovias, comunicação computadorizada entre veículos e entre estes e as centrais de comando e mais uma quantidade de sistemas para tornar o tráfego mais fluido e seguro. Para não falar nos dispositivos que tornarão os próprios carros mais inteligentes antes mesmo do automóvel autônomo.

Mas, como implantar toda essa sofisticação num país que sequer tem faixas adequadamente pintadas no asfalto? Ou sinalização horizontal e vertical de acordo com a padronização internacional? Nem rodovias construídas de acordo com as normas de Primeiro Mundo?

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5 Comentários
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    Mister Gasosa 12 de agosto de 2019

    A culpa das mortes no trânsito são duas:
    1) imprudência dos motoristas;
    2) falta de fiscalização.

    Caminhoneiro que cola na traseira de carro de passeio devia levar cadeia de 10 anos por tentativa de homicídio. E o mesmo vale para carro de passeio que anda colado no carro a frente.

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    Jeferson Araujo 11 de agosto de 2019

    Parabéns pelo artigo. Colocaste o dedo na ferida. Espero que os governos e os condutores tomem conhecimento e cada um faca sua parte.

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    Cicero de Almeida 10 de agosto de 2019

    Gosto muito de suas matérias e comentários, adoro e aprendo muito., Mas esperar que o governo resolva tudo. é esperar muito nos falta educação geral e no transito não é diferente, a grande maioria dos acidentes são por falha humana (irresponsabilidade). O governo atual até tem melhorado as condições viárias, falta muito é verdade, mas só a melhoria das estradas não resolve o problema das mortes, precisamos de EDUCAÇÃO, RESPEITO AS LEIS etc…

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    ANTONIO CARLOS FERREIRA 10 de agosto de 2019

    Ao inves de reclamação contra governos, estradas, leis, vejam estatisticas da maioria que trafega pelo país todo sem se acidentarem. O problema do Brasil é cultural, todos querem ser superior aos demais e isso no transito significa acidente a vista. Sempre viajo em muitas direções por muitas rodovias e sempre em segurança. Circulei pelos Estados Unidos, em menor quantidade vi buracos em pista, pista em reparos mas os motoristas comportados, educados, é isso que falta aos que se acidentam. A maioria aqui tambem é educada e viajam em segurança, não se acidentam.

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    Gaspar Pinto da Silva 10 de agosto de 2019

    Bom dia!
    Boris você é fera. Seu fã!
    Aprendi e ainda aprendo muito contigo.
    Abraço!

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