Número de mortes no trânsito brasileiro pode ser muito maior que o anunciado

Especialista canadense explica que existem países onde autoridades acompanham o quadro de saúde dos acidentados por um ano para obter estatísticas fiéis

Por Laurie Andrade12/03/19 às 10h30

A engenheira civil especialista em tráfego e desenho de estradas Geni Brafman Bahar trabalha para melhorar as vias e prevenir acidentes de trânsito no Canadá. Sua função é agregar uma visão humana à engenharia. Ao modificar os desenhos das ruas, a profissional que nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, se preocupa em facilitar a compreensão dos motoristas e pedestres, diminuir os erros humanos e aumentar a segurança no tráfego. Questionamos a engenheira sobre alguns itens relacionados ao tema e traçamos um parâmetro entre Canadá e Brasil.

Em primeiro lugar, a especialista chama atenção para a preocupação do país norte-americano em entender o número real de vítimas fatais. “No Canadá, as autoridades não fecham um boletim de ocorrência antes de 30 dias após o acidente. O padrão serve para garantir que as estatísticas retratem com fidelidade as mortes e a gravidade dos acidentes de trânsito no Estado”, explica.

“Para uso geral na administração de programas de segurança rodoviária, o período especificado é de 30 dias. Essa regra de contagem de fatalidade é adequada para a maioria das aplicações, mas outras são necessárias para atender a requisitos específicos. Um parâmetro de 12 meses para a contagem de fatalidades é usada de acordo com os procedimentos da Organização Mundial de Saúde adotados para relatórios de estatísticas vitais nos Estados Unidos. A experiência indica que, das mortes por acidentes de trânsito que ocorrem dentro de 12 meses, cerca de 99,5% ocorrem em 90 dias e cerca de 98% ocorrem em 30 dias”, explica o Manual de Classificação de Acidentes de trânsito do American National Standard.

No Brasil, segundo a assessoria de comunicação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), as mortes contabilizadas são aquelas que acontecem durante os acidentes: “os dados da PRF se referem apenas dos óbitos constatados imediatamente no acidente. Até mesmo porque o óbito posterior ao acidente, mas em decorrência dele, depende de perícia”. Esse fato mostra que o número de vítimas fatais no Brasil é subestimado.

A assessoria da PRF explicou ainda que existem outros órgãos que podem fazer o acompanhamento das vítimas e contabilizar as mortes em decorrência de acidentes, como o Ministério da Saúde. Questionado, o órgão não respondeu por quanto tempo acompanhas as vítimas de acidentes de trânsito.

Mesmo com dados falhos, já que só sabemos quantas pessoas perderam a vida durante os acidentes de trânsito, o número de mortes brasileiro é muito diferente do canadense. Em 2016, quando foi realizado o último levantamento do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 37.345 mortes no trânsito. No mesmo período, o Canadá perdeu 1.895 vidas pelo mesmo motivo.

Especialista em tráfego canadense analisa o número de acidentes e mortes no trânsito brasileiro. Além disso, traça diferenças entre a legislação dos países.

Impressões sobre o trânsito brasileiro

Em viagem ao Brasil, Geni Bahar afirma perceber pouca atenção dos motoristas aos pedestres, motociclistas e sinais. “É comum observar condutores ultrapassando uma placa de pare e tendo pouca atenção aos mais vulneráveis, como ciclistas”, comenta.

A especialista diz ainda que impressiona a falta de uma faixa específica para motociclistas, já que eles existem em grande quantidade por aqui. “Acho que o trânsito está injusto e muito perigoso para os motociclistas. Tem que haver mais atenção por parte das autoridades. Não fico surpresa que as estatísticas sejam tão tristes”, lamenta a engenheira.

Das 37,3 mil mortes que ocorreram no trânsito do Brasil em 2016, as motocicletas foram responsáveis por 12,1 mil, de acordo com as informações do Observatório Nacional de Segurança Viária.

Os veículos de duas rodas também foram responsáveis por 74% de todas as indenizações do DPVAT (Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre).

Brasil x Canadá

Lei do farol baixo

Segundo a especialista, no Canadá os carros já vem com farol de rodagem diurna (DRL), farol automático e ou sensor crepuscular há mais de 25 anos. Por isso, não há necessidade de uma normatização semelhante à lei do farol baixo.

Renovação de CNH

Assim como no Brasil, no Canadá é preciso renovar a carteira de motorista a cada cinco anos. O processo, no entanto, é diferente. Os condutores canadenses não precisam passar pelos exames médicos. Isso porque os médicos do país são obrigados a relatar qualquer condição médica que influencie na condição de dirigir.

No país norte-americano, apenas depois dos 80 anos os motoristas precisam fazer testes de anuais. Por aqui, a idade mínima para renovação de CNH a cada três anos deve passar para 70 anos, mas ainda é de 65.

Carteira provisória e limite

Diferente do Brasil, onde os recém-condutores precisam passar por um período probatório de 12 meses sem cometer uma infração gravíssima ou duas médias, os motoristas canadenses precisam passar por três estágios de licença.

A mais simples, G1, exige que o condutor esteja acompanhado de uma pessoa com mais de quatro anos de carteira G (CNH convencional) para dirigir. Além disso, o motorista não pode ter ingerido álcool, trafegar entre 00h e 05h da manhã e dirigir em rodovias.

A segunda, G2, também exige que o motorista não tenha resquícios de álcool no sangue e apresenta menos tolerância com infrações. A mais completa, G, aceita uma 0.08% de álcool no sangue e tem tolerância de 15 pontos em infrações.

No Brasil, o limite para cassação da CNH é de 20 pontos em infrações.

Lei seca

No Canadá, a tolerância de álcool no sangue não é zero. Lá, o motorista pode apresentar até 0.08% de concentração da substância. Mas Geni Bahar não vê a tolerância zero com maus olhos: “é uma determinação bem definida”.

Sugestões para um trânsito melhor

O caminho para melhorar os índices de acidentes e mortes de trânsito é, segundo a especialista, realizar campanhas educacionais e planos de segurança integrados:

Os planos de segurança devem ser criados com base em decisões tomadas por um grupo integrado, que contenha policiais, políticos, especialistas em saúde pública, responsáveis por centros de formação de condutores, engenheiros e psicólogos. Estudar as pesquisas sérias já realizadas no país e no mundo também é necessário. Por fim – e tão importante quanto inovar – é pesquisar as consequências da implementação das novas diretrizes.

Especialista em tráfego canadense analisa o número de acidentes e mortes no trânsito brasileiro. Profissional explica o caminho para melhorar esses índices.
Geni Bahar | Arquivo Pessoal

“Não é o ideal criar leis ou normas com base no que você acha, como engenheiro, que vai apresentar bons resultados. É preciso estudar as consequências diretas e indiretas de cada determinação a ser implantada. Não é uma coisa trivial, é necessário pesquisar exaustivamente se existem outras experiências parecidas”, insiste a especialista.

Outra questão relevante é o treinamento de engenheiros para desenvolvimento de estatísticas de previsão de acidentes. “Hoje, os tipos de rodovia e de sinalização já indicam a gravidade de seus possíveis acidentes de trânsito”, finaliza.

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5 Comentários
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    GERALDO NOGUEIRA PEREIRA 12 de março de 2019

    O que temos que fazer é parar de se comparar com os outros; somos uma nação sem características e isto é fatal para nós, temos que criar nossa própria personalidade.
    Também temos que distribuir as responsabilidades e deixar de culpar o condutor (quem é este condutor, sem CNH é um criminoso já teríamos que nos consciente deste fato), o governo esta se esquivando da suas responsabilidades ao deixar de fazer sua parte no contexto geral (passarelas, ampliação das vias, orientação aos pedestres e ciclistas, educação para o trânsito).
    E este exame fajuto que se aplica para se avaliar os candidatos. E por ultimo os DETRANs, aqui no estado do Espirito Santo é um cabide de emprego dos deputados, onde o conceito ainda é da época da onça….. que o candidato tem que se adestrado (não é um ser humano, é uma animal?)…..temos que nos refazer, educação e caráter andam lado a lado…. e isto esta faltando.

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    Thiago 12 de março de 2019

    NO BRASIL, PRECISA INVESTIR MAIS EDUCAÇÃO NO TRANSITO, TER INSTRUTORES MAIS QUALIFICADOS, PARA ORIENTAR O NOVO MOTORISTA, OS MAIORES ÍNDICES DE ACIDENTE NO TRANSITO EM VIAS PUBLICAS, SÃO EM CRUZAMENTO, MOTORISTA NÃO RESPEITAM A PLACA VERMELHA, PARE, PARADA OBRIGATÓRIA, QUANTO TEM UM ESPAÇO ESTREITO PARA PASSAR O CARRO, NA MENTALIDADE DO MOTORISTA, QUEM CHEGA, PRIMEIRO, PARA PASSAR, NO ESPAÇO, ESTREITO, MOTORISTAS NÃO DÃO PASSAGENS PARA AMBULÂNCIA, QUANDO ESTAR COM A SIRENE LIGADA, QUANDO O MOTORISTA DO CARRO DA PASSAGENS PARA AMBULÂNCIA, AINDA TEM MOTORISTA, ACHA RUIM, MOTORISTAS, NÃO FAZ GENTILEZA, NO TRANSITO, OS MOTORISTAS BRASILEIROS, PRECISAM TER ÓTIMOS HÁBITOS, A MAIORIA DOS MOTORISTAS BRASILEIROS, TEM PÉSSIMO HÁBITOS, NÃO FAZ UMA MANUTENÇÃO PREVENTIVA, ANDAM COM PNEUS CARECA, QUASE NO ARAME, MODO DE FALAR, MOTORISTAS PARAM NAS VAGAS DE IDOSO, DEFICIENTE, QUANDO NÃO TEM OS CARTÕES PARA AS VAGAS,MOTORISTAS, TEM UMA MENTALIDADE, SÓ COLOCAR A GASOLINA E ANDAR COM CARRO, COMO NA FRASE DE MONTEIRO LOBATO: “UM PAÍS SE FAZ COM HOMENS E LIVROS”.,QUANDO OS MOTORISTAS SE CONSCIENTIZAR,VAI DIMINUIR AS MULTAS, AS INDÚSTRIAS DAS MULTAS, EU QUERIA SABER ONDE VAI O DINHEIRO DAS MULTAS, VAI PARA O ESTADO OU GOVERNO,DEPOIS FALAM, O PAÍS ESTAR QUEBRADO, O QUE ARRECADAM IMPOSTOS, MULTAS DE TRANSITO, NESSE PAÍS, PRECISA TER MAIS TRANSPARÊNCIA COM O DINHEIRO PUBLICO.

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    Gabriel 12 de março de 2019

    Fico sempre impressionado quando uma moto me ultrapassa na rodovia fazendo corredor a uns 100 km/h ou mais… suicídio!!!
    Acho que quem é dono de fábrica de moto não anda de moto porque nela o para-choque é você!
    Eu tenho CNH categoria AB, mas não dirijo moto a uns 10 anos… quase morri e vi que moto não presta!

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    Gabriel 12 de março de 2019

    O povo geralmente é muito imprudente nas estradas seja de moto, carro, caminhão ou ônibus… dirigem em alta velocidade muito acima dos limites permitidos das vias e quem as vezes paga o pato é quem não tinha nada haver.
    Andam colado na traseira do carro a frente e acha que isso é seguro… tem país que isso dá cadeia… direção perigosa. Fora o risco de levar um tiro de quem estiver sendo empurrado.
    Assim enquanto as penas forem brandas as mortes infelizmente continuaram nesse rítmo.

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    Marcos Mariano 13 de março de 2019

    Comprei um ecospot 4wd 2015 pois moro em uma area de chara. Quando fui sobir uma estrada estrada eslamassada deu pane em todo sistema de controle de trassao, abs, etc… Fui a concessionaria e fui informado que a garantia nao cobreria e que deveria ser rastreado com custo, mais o certo seria trocalo por uma Hange. Esperei o vencimento da mesma e desmontei o carro. P minha supresa toda parte sensoria trazeira bem danificada pois é esta bem esposta a contaminacao por barro, areia, agua, etc.. um absurdo p um 4×4 gostaria de ascionsionar Ford em um Ricoll com fazer?

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