Um Escort XR3 “pra cabra-macho”

Por Douglas Mendonça26/03/18 às 11h05

Esse fato aconteceu lá pelo final de 1988. Eu testava carros para uma revista especializada conhecida no mercado nacional. A Ford, na época integrante do grupo Autolatina, que fundia a marca americana a alemã Volkswagen para que juntas fizessem trocas de componentes e, dessa forma, tivessem uma oferta de produtos de qualidade superior. Esse era um dos objetivos da fusão das marcas no grupo Autolatina.

Era uma época de inflação altíssima, quando a demanda de mercado era maior do que a indústria automobilística era capaz de produzir. Esse fato gerava, acreditem, um sobrepreço na cifra sugerida pela fábrica que o mercado chamava de ágio. Como a inflação era alta, o consumidor preferia pagar mais caro para ter o carro no momento da compra do que aguardar alguns meses para a chegada do carro encomendado que viria com um preço aumentado por causa da inflação. Tempos difíceis.

Escort XR3 em um teste de cabro-macho

Mas, vamos lá a historia do XR3 para “nego corajoso”. Eu testava o primeiro XR3 que deixava de usar o motor CHT 1.6 para utilizar o poderoso motor VW AP 1800. Utilizávamos uma pista de testes localizada na cidade do interior paulista de Limeira. Essa pista tinha duas longas retas de 1.800 metros com duas curvas inclinadas que uniam essas retas. A Ford nos informava que com esse novo motor o carro deveria atingir mais de 190 km/h de velocidade máxima. Acontece que esse resultado era obtido em retas mais longas onde o motor poderia desenvolver sua performance máxima. Nessa pista, por mais que me esforçasse, chegava, no máximo, a 179 km/h.

A engenharia da Ford informada sobre esses resultados aquém de suas expectativas, reclamou, sem considerar que a reta era curta. Mandaram, a toque de caixa, seu principal homem de comunicação, nosso até hoje amigo Luiz Carlos Secco. Chegando a Limeira, Seccão, como é carinhosamente chamado pelos jornalistas, quis participar pessoalmente do teste de velocidade máxima, dentro do carro comigo no comando. Eu não iria.

Mas Seccão, como todo “cabra macho”, se encheu de coragem e resolveu encarar a prova como passageiro. Ele queria ver de perto a velocidade que o novo XR3 atingiria. Novamente, eu não iria. No banco do passageiro estava o equipamento de teste, o tal aparelho de leitura ótica, na época o que se tinha de mais moderno, que iria aferir a velocidade máxima da máquina. Por esse motivo, o Seccão sentou no banco traseiro.

Fomos para a pista aquecer pneus, motor e lubrificantes e partimos para a primeira medição. Saí da curva inclinada já acelerando tudo o que o novo motor 1.8 poderia me dar. Terceira, quarta, quinta marcha e pé na tábua. O velocímetro digital subia rapidamente. Cheguei ao final da reta com o velocímetro digital marcando alguns décimos a menos do que o 179km/h que já havia aferido. O peso do carona, atrapalhava um pouquinho.

Mas a porca torceu o rabo mesmo no momento da frenagem da outra curva. Sempre aplicávamos o freio como se faz nas competições: de maneira brusca e dura, a ponto de desequilibrar a traseira no momento da frenagem. Mas, nesse caso o erro foi meu, não considerei o peso extra do carona no banco traseiro e na frenagem brusca do final da reta, a reação do XR3 foi completamente inesperada, com sua traseira abanando da esquerda para a direita e vice-versa que assustou até a mim que tinha uma larga experiencia como piloto de corridas em circuitos por esse Brasil afora. Com rápidos movimentos de volante, fui anulando os desequilíbrios da traseira e, momentaneamente, o carro estabilizou, permitindo que eu completasse a curva inclinada com tranquilidade.

Fui comentar com o meu amigo, o mais natural possível, que a velocidade máxima do carro naquela pista era aquela que eu havia informado. Quando olhei para trás para comentar com o Seccão, descobri que no momento do sufoco ele havia se deitado no banco traseiro para tentar se proteger. Perguntei se estava tudo bem, e o “nego corajoso” voltou a sentar no banco e conversar comigo naturalmente como se nada tivesse acontecido. Comentou apenas que naquela pista, aquela velocidade era realmente o máximo que o XR3 poderia fazer. Atestado isso, encerramos essa prova.

Descemos do carro, e o Seccão informou que voltaria imediatamente pra a Ford em São Bernardo pois tinha compromissos na fábrica no final da tarde. Quando nos despedíamos, o destemido assessor de imprensa me disse:” Parabéns pelo trabalho que você realiza aqui, não tenho do que reclamar! Mas, gostaria de te parabenizar mesmo por aqueles movimentos de volantes que nos livrou de uma bela encrenca! Parabéns por tua habilidade impecável, que salvou a nos dois!” Seccão voltou para seus afazeres na fábrica, sem saber que eu também tomei um tremendo susto. Vi a viola em cacos, mas, “Ufa”, nos livramos.

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6 Comentários

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  • Sérgio 27 de março de 2018

    Tenho um XR3 By Frankylin 2.0 a gasolina, anda bem e econômico, não se compara ao CHT

  • Evanildlo 27 de março de 2018

    Tenho um escort95sapao1.8 um ótimo carro econômico

  • Lucas 27 de março de 2018

    Tenho um XR3 que só me dá gastos 1.6 CHT não chega a 110

  • Carvalho 26 de março de 2018

    Tive um desses xr3 89 AP … a álcool … o consumo era tão alto que mesmo naquela época pesava no bolso … se ligasse o ar condicionado sobrava a metade da potência pro motor … mas era um carro belo e cheio de estilo na época, chamava muito a atenção!!

  • Gus 26 de março de 2018

    Que bela novidade! É aquele tipo de “causo” que – por incrível que pareça – a gente não encontra em nenhum site atual, os antigos profissionais da área não exploram muito o assunto, mesmo que vindo da época das publicações impressas.
    Só que foi publicada a máxima de 172 km/h e não de 179 km/h na Quatro Rodas…

  • paulo e.f. diehl 26 de março de 2018

    tive os xr3 , 1.6 uma lesma , 2.0 I jetronic, [problemático] e o RS zetec 1.8, este último foi o único que andava bem e era econômico!!!

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