5 viagens de carro no Brasil que podem virar um pesadelo para os motoristas

Da capital isolada à estrada com mais acidentes do país: cinco trajetos em que dirigir exige planejamento, veículo preparado e paciência de sobra

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Brasil tem paisagens fascinantes, mas, para alcançá-las, pode ser necessária muita paciência (Foto: Alberto César Araújo | Amazônia Real)
Por Eduardo Passos
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 02/06/2026 às 09h00

Pegar o carro e cair na estrada costuma ser sinônimo de liberdade — mas, em alguns trechos do Brasil, o passeio vira provação. Distâncias enormes sem posto de combustível, pontes de madeira que cedem na cheia, rodovias que viram lamaçal no inverno amazônico e até travessias que simplesmente não existem por terra transformam a viagem em aventura de resultado incerto.

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A seleção do AutoPapo a seguir reúne cinco rotas em que dirigir exige planejamento, veículo preparado e, muitas vezes, paciência de sobra. Há clássicos do isolamento amazônico e percursos quase nunca citados fora das regiões que atravessam. Conheça cinco viagens brasileiras que podem virar um pesadelo.

Belém–Macapá: a viagem que não existe por terra

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Praticamente todo o trajeto entre Belém (PA) e Macapá (AP) é feito levando o carro sobre balsas (Foto: Agência Pará | Divulgação)

O Amapá é o único estado brasileiro que não tem ligação via estradas com outros lugares do Brasil e isso, obviamente, afeta drasticamente a chegada à sua capital, Macapá. Quem sai de Belém de carro descobre logo que não há estrada: o jeito é embarcar o veículo em uma balsa e cruzar o labirinto de rios do delta do Amazonas.

A viagem de 529 km é semelhante à rota entre Belo Horizonte e São Paulo, que dura cerca de 6 horas. Na rota amazonense, entretanto, o deslocamento por balsa pode levar em torno de 48 horas.

Por esse motivo, nem é comum embarcar o carro: a maioria dos viajantes vai direto de barco, que leva ‘só’ 24 horas para chegar à capital dos amapaenses. A bordo, o passageiro costuma armar a própria rede para dormir e pagar as refeições à parte. Sustos não faltam: em abril de 2023, carretas tombaram dentro de uma balsa quando a correnteza fez a embarcação balançar. A solução definitiva seria uma ligação por terra, mas a ponte sobre o Rio Jari, entre Laranjal do Jari (AP) e Almeirim (PA), começou a ser construída em 2002 e foi paralisada diversas vezes — até hoje sem conclusão.

BR-319 (Manaus–Porto Velho): a rodovia que não tem hora para acabar

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Na BR-319 falta tudo: asfalto, combustível e seres humanos (Foto: DNIT | Divulgação)

São 885 quilômetros ligando Manaus a Porto Velho, uma das únicas ligações terrestre entre o Amazonas e o resto do Brasil. O problema mora no miolo: dos 885 km, cerca de 405 km não têm pavimento e são praticamente intrafegáveis há mais de 30 anos. No período de chuvas, o maior desafio são os atoleiros e a lama profunda, e veículos podem ficar presos por dias.

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Na estiagem, o cenário muda, mas não melhora: a lama dá lugar à poeira intensa, que reduz a visibilidade a quase zero, enquanto buracos e pontes de madeira precárias exigem destreza dos motoristas. Há ainda longos ‘buracos’ de quase 700 km sem nenhuma cidade, nenhum posto de gasolina e nenhum apoio, o que obriga a levar peças, comida e água. Recomenda-se que apenas veículos com suspensão alta, como caminhonetes e 4×4, encarem o trecho no período chuvoso.

Transpantaneira (Poconé–Porto Jofre): 122 pontes e quase nenhum posto

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Transpantaneira tem várias pontes de madeira; falta de asfalto é intencional (Foto: Reprodução)

Fora do eixo amazônico, a MT-060 atravessa o Pantanal mato-grossense. Com 147 quilômetros entre Poconé (MT) e Porto Jofre (MT), a estrada cruza nada menos que 122 pontes de madeira — e as piores começam por volta do km 60, algumas em péssimo estado. Na cheia, muitas pontes ficam intransitáveis e dificultam o acesso, isolando quem está no meio do caminho.

A rodovia não foi pavimentada por opção do governo, para reduzir os impactos sobre a fauna, o que significa poeira na seca e lama na chuva. Pior: de Poconé a Porto Jofre só há um posto de combustível, mais ou menos no meio do caminho, em Pixaim — e nem sempre há estoque para vender.

Jacarés, capivaras e até onças cruzam a pista a qualquer hora, e a estrada simplesmente termina em Porto Jofre: o plano original de seguir até Corumbá foi abandonado nos anos 1970 por falta de recursos.

BR-381 (BH–Governador Valadares): a “rodovia da morte”

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Duplicação é lenta, mas vem diminuindo pontos críticos da BR-381 (Foto: DNIT | Divulgação)

O apelido entrega o enredo. A expressão “rodovia da morte” batiza o trecho da BR-381 entre Belo Horizonte e Governador Valadares, considerado de altíssima periculosidade por causa do traçado sinuoso, das curvas fechadas e do intenso fluxo de veículos de carga em uma pista que é simples em boa parte do trecho. Entre 2018 e 2024, segundo estudo da Fundação Dom Cabral, foi a rodovia federal com a maior média de acidentes por quilômetro do país — 3,24 acidentes a cada mil metros de pista.

Os números do dia a dia confirmam a fama: só em 2023, a Polícia Rodoviária Federal contabilizou 2.641 acidentes e 171 mortes no trecho mineiro. A tragédia mais recente foi em abril de 2026, quando uma equipe de reportagem da Band Minas morreu em uma colisão frontal com um caminhão em Sabará, na região metropolitana da capital. As obras de duplicação entre Belo Horizonte e Caeté começaram na década passada, mas grande parte do corredor — que corta o Vale do Aço, passando por cidades como Ipatinga — segue em pista simples, exigindo atenção redobrada de quem pega o volante.

Baixada Fluminense (RJ): o corredor mais visado pelo roubo de carga

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Trechos de rodovias federais que passam pelo Rio de Janeiro têm números alarmantes de assaltos e roubos de carga (Foto: Prefeitura do Rio | Divulgação)

Quem entra ou sai do Rio de Janeiro pela Região Metropolitana atravessa o trecho rodoviário mais castigado por roubo de carga do Brasil. Um feixe de federais essenciais — a BR-040 (Washington Luís), a BR-101 (Avenida Brasil) e a BR-116 (Presidente Dutra), somadas à BR-493 (Arco Metropolitano) — concentra a maior parte das ocorrências do estado. Em 2025, o crime custou cerca de R$ 314 milhões ao Rio, com média de oito caminhões roubados por dia, segundo nota técnica da Firjan.

O epicentro é a Baixada Fluminense. Duque de Caxias e região concentraram 36% de todos os roubos de carga do estado em 2025, e a circunscrição do município liderou o ranking com 399 ocorrências, alta de 29% sobre 2024. Mais da metade dos registros do estado (52,8%) ficou concentrada em apenas oito das 137 circunscrições de segurança pública — gargalos que se repetem justamente ao longo desses corredores. E não é problema só de caminhoneiro: em 2025, a BR-101 ultrapassou a BR-116 e assumiu a liderança entre as rodovias com maior concentração de roubo de carga do país. Por ali, a recomendação de quem conhece o trajeto é simples: janelas fechadas, nada de parar em ponto isolado e atenção redobrada à noite, quando os assaltos se intensificam.

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