Dieselgate: entenda a fraude global das emissões

Preparamos um especial explicando os detalhes de um dos maiores escândalos da indústria automobilística e seus desdobramentos

Por Bárbara Angelo23/09/17 às 08h45

O grupo Volkswagen é protagonista do Dieselgate – um dos maiores escândalos da história da indústria automobilística –  por ter fraudado as emissões de produtos tóxicos na atmosfera em 11 milhões de veículos. A artimanha atingiu o Brasil e, decisão judicial da última terça-feira (19), determina que a empresa indenize 17.057 donos de picape Amarok em R$ 64 mil cada. Somadas as multas o valor que a empresa deverá pagar chega a R$ 1 bilhão. A VW afirma que vai recorrer.

O escândalo vai muito além de ter sujado o nome da empresa e gerado multas bilionárias em diversos países. Um estudo recente publicado na Inglaterra atesta que cinco mil mortes causadas pela poluição por NOx na Europa poderiam ter sido evitadas se os veículos a diesel tivessem operado diante dos critérios da legislação. Sem fraude.

Leia como ocorreu a fraude e os desdobramentos nesse especial preparado pelo AutoPapo.

Dieselgate

O que é o dieselgate

Em 18 de setembro de 2015, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) emitiu uma notificação de violação para o Grupo Volkswagen. O órgão havia descoberto, através de análises feitas pela Universidade de West Virginia, que a montadora vinha forjando os resultados de testes de emissão de veículos, para mascarar os verdadeiros números. O caso passou a ser conhecido como dieselgate, um termo cunhado pela imprensa norte-americana.

O sufixo “gate” na língua inglesa, principalmente nos Estados Unidos, é uma maneira de designar um grande escândalo.  Começou a ser usado o início dos anos 1970, quando o Watergate Complex (prédios de escritórios) foi palco das tramoias  que levariam a queda do presidente norte-americano Richard Nixon. 

Segundo a EPA, veículos da Volkswagen movidos a diesel eram fabricados com um software que detectava se os automóveis estavam sendo testados. Quando isso ocorria, o dispositivo intervia no funcionamento do motor de forma a diminuir a quantidade de poluentes emitidos. Durante o uso comum, no entanto, os modelos liberavam químicos no ar em quantidades proibidas pela legislação norte-americana.

Entre as substâncias emitidas, os óxidos de nitrogênio (NOx) eram os maiores excedentes. Em alguns modelos, o químico ultrapassava o limite legal em até 40 vezes.

As investigações da EPA, em conjunto com informações fornecidas pelo Grupo Volkswagen, revelaram que o software estava presente em todos os veículos 2.0 e 3.0 movidos a diesel fabricados entre 2009 e 2015. A irregularidade envolvia modelos das marcas Volkswagen, Porsche, Audi, SEAT e Škoda controladas pelo grupo. Calcula-se que até 11 milhões de veículos tenham sido afetados no mundo.

Como a fraude era feita

O software é um algoritmo que faz parte da unidade eletrônica de controle (ECU) do motor. A central eletrônica, que é um computador, regula diversos componentes de acordo com as características da pista na qual o veículo se desloca. Por sua vez, a ECU é comandada por códigos programados de acordo com os objetivos da fabricante.

Em motores a diesel, os algoritmos regulam desde a taxa de injeção de combustível e controle de turbo, até os níveis de emissões. É nesta seção do programa que foi encontrado o código avaliado como o responsável pela fraude. O software, considerado de extrema sofisticação, era capaz de detectar que o veículo estava passando pelas etapas de testagem, já que elas são padronizadas e de conhecimento público.

A análise de emissões envolve a simulação sobre rolos, em laboratório, de um circuito padrão, no qual o veículo é acelerado até determinada velocidade, então estacionado, e acelerado novamente, entre outros. As informações de velocidade e direção das rodas, assim como a pressão dos pneus sobre o dinamômetro, foram fundamentais para permitir a criação do código.

Tendo detectado o teste, o algoritmo alterava o funcionamento do motor de forma a diminuir as emissões de óxidos de nitrogênio. O software também aumentava o funcionamento do filtro de NOx, responsável por minimizar a liberação do químico na atmosfera. A ativação do filtro, no entanto, diminuía a performance do veículo e aumentava o consumo de combustível, segundo uma pesquisa do Consumer Reports.

Volkswagen dieselgate software
(Fabiano Azevedo/AutoPapo)

Uma história de gatos e ratos

O estudo independente que revelou a trama foi feito por pesquisadores da Universidade de West Virginia (WVU). De acordo com a legislação norte-americana, todos os veículos vendidos no país devem ser submetidos aos testes de emissão dentro de laboratórios. A análise é feita com o automóvel sobre um dinamômetro, o que permitiu o desenvolvimento do software.

A WVU, no entanto, submeteu os veículos a análises na estrada, que não são feitos pelas autoridades devido aos custos e desafios técnicos do método. Ali, os pesquisadores descobriram as discrepâncias nos resultados, pois o software não identificou o teste. Eles, no entanto, não identificaram a presença do código, que só foi descoberto quando a Volkswagen confessou o crime à Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.

O software é parte de uma ECU desenvolvida pela Bosch em conjunto com outras tecnologias, como Controle de Estabilidade, que equipam os veículos. O código em questão foi desenvolvido para permitir que os automóveis fossem testados sem a intromissão dos sistemas de controle eletrônicos. O algoritmo foi, entretanto, programado para fraudar os níveis de emissões em uma etapa desconhecida do processo de fabricação. Devido a isso, a Bosch também é investigada pela possibilidade de ter cooperado com o crime.

Dieselgate não é só da Volkswagen

Embora as irregularidades tenham sido descobertas em veículos da Volkswagen, investigações na Europa indicam que outras montadoras estariam envolvidas em uma conspiração. O site de notícias alemão Der Spiegel publicou, em julho, informações de que o Grupo Volkswagen, Daimler e BMW fizeram acordos acerca de tecnologias de controle de emissões durante anos, em mais de mil reuniões.

O site teve acesso a documentos oficiais das montadoras que mostravam troca de informações e decisões conjuntas no sentido de burlar a legislação ambiental. Em um deles, a Audi afirmava que não havia necessidade de se adequar às regras, pois montadoras “estavam, há muito tempo, enganando autoridades e consumidores com relação às verdadeiras emissões de veículos”, cita a reportagem.

Os documentos vieram à tona durante uma investigação por parte da Comissão Europeia sobre as três corporações. A suspeita é de formação de cartel para regular o preço de equipamentos utilizados para reduzir emissões. A investigação foi confirmada pelas autoridades e ainda está em andamento.

Além disso, uma pesquisa da organização europeia ADAC mostrou que veículos a diesel da Renault, Nissan, Hyundai, Citroën, Fiat e Volvo, entre outros, também extrapolavam os limites legais de emissões. Os testes feitos pela organização foram desenvolvidos pelas Nações Unidas e envolvem uma série mais longa de etapas, segundo reportou o jornal The Guardian. Os resultados mostraram emissões até 14 vezes maiores que as detectadas pelos testes utilizados pelas autoridades reguladoras.

Fraude pode ter provocado 5 mil mortes

O diesel é considerado uma das principais fontes de dióxidos de nitrogênio. Veículos com o combustível emitem NOx até 20 vezes mais do que se fossem movidos a gasolina, segundo matéria do The Guardian.

Os óxidos de nitrogênio são diferentes compostos químicos formados por nitrogênio e oxigênio. O conjunto de substâncias contribui para a poluição atmosférica na forma de partículas no ar e ozônio, e tem como principal vilão o dióxido de nitrogênio (NO2). O NO2 pode causar má formação pulmonar em crianças, enfisema pulmonar, complicar doenças respiratórias e cardiovasculares, agravar reações alérgicas e surtos de asma, e levar à morte prematura.

Um estudo publicado no periódico científico Enviromental Research Letters, neste mês, afirma que em torno de 10 mil mortes prematuras foram causadas pela poluição por NOx na Europa, apenas em 2015. O artigo calcula que em torno de 5 mil destas poderiam ter sido evitadas se veículos a diesel estivessem operando de acordo com a legislação. Se estes mesmos veículos fossem movidos a gasolina, os pesquisadores estimam que as mortes prematuras teriam caído para 2 mil.

Os riscos que os químicos representam para a saúde são especialmente graves na Europa, onde o uso de automóveis movidos a diesel foi encorajado pelo governo. Atualmente, em torno da metade da frota de veículos da região faz uso do combustível, calcula o estudo.

Crimes e castigos da Volkswagen

Após a revelação do escândalo do dieselgate, a Volkswagen passou a negociar planos de retificação com diversas entidades legislativas nos Estados Unidos, incluindo a Agência de Proteção Ambiental (EPA), o Comitê de Recursos Aéreos da Califórnia (CARB) e o Departamento de Justiça.

Ainda em setembro de 2015, o então CEO da Volkswagen, Martin Winterkorn, renunciou ao cargo. Em um pronunciamento, Winterkorn afirmou que aceitava a responsabilidade pelas irregularidades, mas negou ter envolvimento pessoal com o caso.

Desde então, a corporação já concordou em pagar mais de US$20 bilhões em diversos acordos legais, apenas nos Estados Unidos, estimou a Forbes.

O montante inclui a indenização de US$ 5 mil a US$ 10 mil a proprietários de modelos afetados do Grupo Volkswagen, e a oferta de comprar os veículos de volta ou consertá-los, de acordo com a preferência dos envolvidos. Também foram contabilizados o pagamento de multas ao governo e o investimento em fundos de proteção ambiental. No entanto, espera-se que acertos e processos civis continuem a penalizar a montadora, aumentando o valor total.

Na Europa, onde 8,5 milhões dos 11 milhões de veículos comprometidos foram vendidos, a corporação não ofereceu nenhuma indenização aos proprietários. A Volkswagen argumentou que ajustes no software seriam suficientes para resolver a questão sem afetar o valor de revenda dos modelos envolvidos. No velho continente, a regra que define os limites legais de NOx é menos rigorosa. A Comissão Europeia continua, no entanto, a buscar um acordo diferente com a companhia.

Já em agosto deste ano, o Departamento de Justiça norte-americano sentenciou o engenheiro da Volkswagen, James Robert Liang a 40 meses em uma prisão federal, que serão seguidos por dois anos de liberdade supervisionada. O engenheiro foi considerado culpado por conspiração contra o Estado, fraude e violação do Clean Air Act.

Dieselgate no Brasil

No país, o único modelo da marca alemã a ser afetado foi a Amarok. 17.057 unidades da picape, fabricadas entre 2011 e 2012, contam com o software criminoso. Em 2015, a Volkswagen foi multada pelo IBAMA em R$50 milhões por fraude, e o órgão vem estudando uma segunda punição.

A fabricante foi condenada pela 1ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro a pagar uma indenização de R$64 mil a cada um dos proprietários, além de multa de R$1 milhão ao Estado brasileiro. O montante ultrapassa o valor de R$1 bilhão. A Volkswagen, no entanto, está recorrendo na justiça contra a decisão, assim como fez com a avaliação do IBAMA, e ainda não pagou valor algum.

Segundo nota divulgada pela montadora na ocasião, a Volkswagen do Brasil entende que não houve ilegalidade no país. “Os carros envolvidos atendem a legislação brasileira mesmo antes dos referidos softwares serem removidos destes carros”, afirmou a fabricante no pronunciamento.

A Volkswagen oferece, no Brasil, um recall para corrigir a irregularidade.

Modelos envolvidos no dieselgate

Os seguintes modelos foram afetados pela fraude no dieselgate nos Estados Unidos. SEAT e Skoda, do Grupo Volkswagen, que abastecem o mercado europeu também estão envolvidas.

Audi A3 2.0 2010 a 2015
Audi A6 3.0 V6 2014 a 2016
Audi A7 3.0 V6 2014 a 2016
Audi A8 e A8L 3.0 V6 2014 a 2016
Audi Q5 3.0 V6 2014 a 2016
Audi Q7 3.0 V6 2009 a 2015

Porsche Cayenne Diesel 3.0 V6 2013 a 2016

VW Jetta 2.0 2009 a 2015
VW Golf 2.0 2010 a 2015
VW Beetle 2.0 2012 a 2015
VW Passat 2.0 2012 a 2015
VW Touareg 3.0 V6 2013 a 2016

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2 Comentários
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    Charles 11 de janeiro de 2019

    A matéria não trouxe os detalhes dos agravantes no processo da VW nos EUA.
    As multas e penalizações mais pesadas na VW se deve a uma série de agravantes, desde a negligência e ocultação até a mentira e dissimulação.

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    Lucia 20 de junho de 2018

    Não entendi o que e Dieselgate

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