Ford Modelo T: como é dirigir um carro de 110 anos

O primeiro flex do mundo apresentava comandos exóticos, se comparado com os padrões atuais, e prometia 20 cavalos de potência

Por Boris Feldman12/10/18 às 09h32

O Ford Modelo T comemora, em outubro, 110 anos de lançamento. Apresentado oficialmente por Henry Ford em 1908, tinha fama de seguro, simples, barato e simbolizou o nascimento da era do automóvel. O Ford T foi o meu primeiro carro antigo. Aprender a dirigi-lo foi uma emoção.

Apesar de ter as vendas iniciadas em 1908, foi a partir de 1913 que Henry Ford desenvolveu o processo de produção em série do Modelo T. Com sua mecânica simples e fácil de manter, o carro logo caiu no gosto popular. Lançado por 850 dólares, ele chegou ao último ano de produção, 1927, custando 290 dólares.

Em 1920, ele representava mais da metade dos veículos em circulação no mundo e somou mais de 15 milhões de unidades nos seus 19 anos de produção. O Ford Modelo T foi eleito o “Carro do Século” pela Global Automotive Elections Foundation no ano 2000, por um júri de 132 jornalistas de 33 países.

Há 110 anos era lançado o Ford Modelo T. Boris conta como é dirigir o automóvel que representou mais da metade dos veículos em circulação no mundo em 1920.
Foto Ford | Divulgação

Entre seus primeiros proprietários estavam o cientista Thomas Edison. Em 1919, a Ford foi a primeira fabricante de automóveis a se instalar no Brasil, com a produção do Modelo T e do caminhão da linha.

Como já foi dito, o Ford T foi meu primeiro carro antigo. E assim como outros colecionadores, estava certo de que seria o meu primeiro e único.

Aprender a dirigi-lo foi uma emoção. Sim, aprender, pois seus comandos não têm rigorosamente nada a ver com os atuais. Essa era uma de suas virtudes: que graça teria se qualquer motorista tivesse condições de dirigi-lo?

O modelo T era chamado For-de-bigode ou For-de-pedal exatamente por seus comandos exóticos, pelo menos para os padrões atuais.

Como anda o Ford Modelo T

O automóvel contém três pedais, como qualquer outro carro com câmbio manual. Acontece que o Ford T era semi-automático e não tinha embreagem!

O pedal da esquerda engatava as duas marchas (isso mesmo, somente duas…). Pisado no fundo, engatava a primeira. Numa subida, pé embaixo o tempo todo para mantê-la engatada. Desativado, engrenava-se a segunda-marcha. No meio do curso, ponto-morto.

O segundo pedal, do centro, que hoje corresponde ao do freio, acionava a ré. Também só engatada com o pedal pressionado. O pedal da direita (atualmente o acelerador) era o freio. O termo é bem otimista: na verdade, um “ligeiro redutor de velocidade”…

E o acelerador? perguntariam os mais observadores. Ah, vem aí outro complicador e o “For-de-bigode”:

Há 110 anos era lançado o Ford Modelo T. Boris conta como é dirigir o automóvel que representou mais da metade dos veículos em circulação no mundo em 1920.
Foto Ford | Divulgação

Duas alavanquinhas opostas na coluna de direção justificavam o apelido. A da direita era o acelerador. Na esquerda, o ajuste do ponto de ignição.

Até se acostumar, muita confusão, pois o motorista precisa desaprender a rotina dos carros modernos. No painel do Modelo T, a chave de ignição e um amperímetro. Precisa de mais?

O Desempenho era desalentador. Sua potência declarada, quando novo, era de 20 cv. Mas muitos já tinham morrido pelo caminho…

Digno de nota: o Ford Modelo T foi o primeiro flex do mundo, pois podia ser abastecido com gasolina ou álcool. Para tanto, o ponto do distribuidor era ajustado na alavanca esquerda do bigode. E a relação (estequiométrica) de gasolina ou álcool regulada por um botãozinho redondo à direita do painel. Puxado, era afogador. Girado, aumentava ou reduzia a proporção ar/combustível.

Foi meu primeiro. Mas claro que não foi o único antigo. Mantive-o na garage por uns bons quinze anos, por pura teimosia, pois não era exatamente adequado para incursões além de dois ou três quilômetros.

Faltavam pelo menos uns 30 cavalos e bom comportamento térmico da água do radiador, que, só de avistar uma subida, entrava em plena efervescência! Faltavam também janelas de vidro (eram de plástico) para evitar água de chuva e vento frio. Mas, o Ford Modelo T era uma festa para rodar devagar, no plano e tomando sol na careca com a capota rebaixada…

5 Comentários

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  • Edmir Dias Valladão 15 de outubro de 2018

    Grande Burgos, símbolo de grande sabedoria na era Ford de 70′ 80′ e 90′.
    Bons tempos foram aqueles.

  • Eduardo Roma Burgos 15 de outubro de 2018

    Prezado Sr. Boris Feldman,

    Paz e Bem!

    A flexibilidade de cmbustível do Ford Modelo T aparenta ser outra lenda.

    Há um antigo reclame do trator Fordson que diz:

    O que o tornará, de maior vantagem ainda para este paiz, é poder trabalhar com alcool, com optimos resultados.

    Com confiança relativo ao Fordson Modelo N do fim dos anos vintes ou início dos trintas, foi reproduzido na brochura Crescendo com o Brasil!, editada pela Ford Motor Company – São Paulo, por ocasião da inauguração de sua nova fábrica no bairro do Ipiranga, em abril de 1953. É evidência que a Ford desenvolveu e produziu tratores para funcionar com álcool, em adição às versões a querosene e a gasolina.

    O livro Friends, Families & Forays: Scenes from the Life and Times of Henry Ford, por Ford R. Bryan, contem o capítulo 40, Quest for Alcohol Fuels, relatando o interesse de Henry Ford no álcool combustível.
    https://books.google.com.br/books?id=9DrJz4egJEYC&pg=PA297&lpg=PA297&dq=Fordson+alcohol+tractor&source=bl&ots=JuPG5qJt-x&sig=uYI04aH3VHvcyMS83i9iJKJfxMg&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjB9JKorufXAhUCgZAKHYXmArQ4ChDoAQglMAA#v=onepage&q=Fordson%20alcohol%20tractor&f=false

    Durante a Primeira Guerra Mundial, Henry Ford procurava um substituto para gasolina. Encontra-se na página 219 do livro Wheels for the World, de Thomas Brinkley, de 2003:
    “Gasoline is going-alcohol is coming,” he told a reporter for the Detroit News in 1916. “It is coming to stay, too, for it’s in unlimited supply. And we might as well get ready for it now. All the world is waiting for a substitute for gasoline. When that is gone, there will be no more gasoline, and long before that time, the prices of gasoline will have risen to a point where it will be too expensive to burn as motor fuel. The day is not far distant when, for every one of those barrels of gasoline, a barrel of alcohol must be substituted.”

    A entrevista está disponível na conexão http://www.mtfca.com/discus/messages/257047/Interview_between_Henry_Ford_and_the_Detroit_Evening_Journal-154514-284153.pdf​ em sítio do Model T Ford Club of America.

    Há alguns anos foi propalado que o primeiro motor e veículo, o Quadricycle, construidos por Henry Ford respectivamente em 1893 e 1896, eram movidos a álcool. Não foi encontrada evidência que comprove a capacidade de tal motor ou veículo funcionar com álcool.

    Quanto ao Ford Modelo T ser multi-combustível, como propalado em várias fontes de algum tempo para cá, tem gerado polemica. A farta documentação histórica da época em que era fabricado, disponível nos sítios abaixo, recomendam gasolina para o Ford Modelo T, não suportando afirmar que fosse desenvolvido multi-combustível.
    http://www.cimorelli.com

    Site of the most comprehensive Ford Model T Manual collection available free to anyone

    http://www.cimorelli.com/mtdl/mtdl_year_title_list.htm​

    No sítio do Model T Ford Club of America encontra-se os manuais de 1911, 1921 e 1926. O combustível recomendado é gasolina.
    http://www.mtfca.com/books/bookmenu.htm
    Lá encontra-se também A Model T Service Course do qual transcrevemos os seguintes trechos:
    ………
    Experiments with various gases and liquids have proven that the most practical fuel to use in this country for automobile motors is gasoline.
    ……….
    On long tours, when it is necessary to use various grades of gasoline, it will be noticed that the car will run better when the carburetor is adjusted to meet these differences in the gasoline. All gasoline is distilled from petroleum according to the refining processes to which they are subjected various gasoline possesses different initial and end points.

    Na conexão
    https://www.hemmings.com/blog/2017/04/23/fact-check-henry-ford-didnt-design-the-model-t-as-a-multi-fuel-vehicle/
    encontra-se o artigo
    Fact Check: Henry Ford didn’t design the Model T as a multi-fuel vehicle
    Daniel Strohl on Apr 23rd, 2017
    E na conexão https://www.hemmings.com/blog/2017/04/30/fact-check-rockefeller-didnt-pursue-prohibition-to-ensure-ethanols-demise-as-a-fuel/ o artigo
    ALT-POWER VEHICLES
    Fact Check: Rockefeller didn’t pursue Prohibition to ensure ethanol’s demise as a fuel
    Daniel Strohl on Apr 30th, 2017
    ______________________
    Da sexta edição do livro Self-Propelled Vehicles, por James E. Homans, A. M., publicado por Theo. Audel & Company, em 1907, cerca de um ano antes do início da produção do Ford Modelo T e cinco anos antes do Cadillac Modelo 30 de 1912, primeiro carro com partida elétrica, segue a parte sobre o álcool, nas páginas 232 e 233 do livro.

    Denaturated Alcohol.-The removal of the tax on denaturated alcohol will have, according to some opinions, a decidedly beneficial effect on the automobile industry. It isa fuel that may under favorable circumstances, be very cheaply manufactured. It is also cleaner and less dangerous than gasoline, although possessing a smaller heat-equivalent.
    Denaturated alcohol is merely ethyl spirit, or the common spirit of wine, mixed with methyl alcohol, or wood spirit, and some other hydrocarbon. The object of mingling the spirit with the other ingredients is to prevent its being drunk. Denaturization may be complete or incomplete. In the former case the mixture isuseful only for fuel; in the latter it may be utilized in other industrial processes. A common formula for complete denaturization, as used in Germany consists in mingling 2 1/2 of a “denaturizer,”
    Wood Alcohol…………………………. 4 parts,
    Pyridin ………………………………… 1 part,
    with each 100 liters (26 1/2 gallons) of alcohol spirit. Incomplete denaturization may be achieved by mingling 5 liters of wood alcohol and 1/2 liter pyridin, or 10 liters of sulphuric ether, or 1 liter of benzol, or 1/2 liter of oil of turpentine, with each 100 liters of alcohol. According to various authorities a common mixture for engine fuel consists of 10 volumes of 90% methyl spirit and 1/2 a volume of some other hydrocarbon to each 100 volumes of 90% ethyl alcohol.

    Conditions of Using Alcohol Fuel.-The successful use of alcohol as a fuel for a gas engine involves the following conditions:

    1. For complete vaporization of the alcohol heat is necessary. For this reason the carburetter is frequently heated by the exhaust or by water jacketing. One type of alcohol carburetter, shown in Fig. 167, is double, the engine being started with gasoline, and run with alcohol as soon as the speed is sufficient to generate a high temperature. The alcohol is then turned on by the rotary cock valve, B.

    2. A higher compression than is commonly used with gasoline is necessary, in order to obtain as high a power-efficiency as possible.

    3. Reliable sparking devices are essential, in order to produce complete combustion, preventing injurious acid products liable to result from water vapors and incomplete combustion.

    The power-efficiency of alcohol has been given as slightly over 1 pint per horse-power, according to purity. The figure for gasoline is generally given as about .86 pint per horse-power. An interesting test of power-efficiency was recently made with a motor vehicle used for dragging a plow. With 2 gallons of gasoline 3 roods were plowed; with 2 gallons of kerosene, 3 roods, 35 poles; with 2 gallons of alcohol. 2 roods, 25 poles.

    Há no texto alguns termos que não conhecia:

    Pyridin ou pyridine, segundo a 11ª edição do Webster Collegiate Dictionary, ou piridina em português: a toxic water-soluble flammable liquid base C5H5N of pungent odor that is the parent of naturally occurring organic compounds and is used as a solvent and as a denaturant for alcohol and iin the manufacture of pharmaceuticals and waterproofing agents

    rood: any of various units of length; esp : a British unit equal to seven or eight yards or sometimes a rod

    pole: a varying unit of length; esp : one equal to a rod (16 1/2 feet or about 5 meters)

    Este livro está digitalizado na conexão
    https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=wu.89088962451;view=1up;seq=1 .

    ______________________________

    Lá por 1981, no Programa Pro-Álcool, era anunciado Para a Ford o Álcool Deu Certo. Na Ford o Programa foi liderado pelo Engenheiro Fernando Barata de Paula Pinto. Até mesmo trator Ford a álcool foi produzido no Brasil, a pedido e com cooperação da Embrapa.
    http://www.ct.utfpr.edu.br/deptos/daelt/professores/alvaug/Cogera%C3%A7%C3%A3o/The%20sugarcane%20ethanol%20power%20industry%20in%20Brazil.pdf​

    The Sugarcane Ethanol Power Industry in Brazil: Obstacles, Success and Perspectives
    J. Marques De Azevedo, Member, IEEE and F. D. Galiana, Fellow, IEEE.
    McGill University, Montreal, QC, Canada
    Para referência, na conexão acima encontra-se um trabalho de 2009 desmistificando alguns itens do etanol.

    Atenciosamente
    Eduardo Roma Burgos.

  • Celio* 13 de outubro de 2018

    Ops…
    E quais carros antigos você tem hoje?

  • Edson aquino 12 de outubro de 2018

    Sempre e bom saber sobre a história automotiva parabéns boris

  • Jeff 12 de outubro de 2018

    Ótimo texto Boris!
    Obrigado por compartilhar a experiência

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