Posso comprar pneu remold?

Cuidado: apesar de ser operação de remanufatura sem problemas no Primeiro Mundo, foi mal regulamentada no Brasil

Por Boris Feldman02/09/18 às 10h00

Não, você corre riscos. A rigor, não  haveria problema nenhum em utilizar um pneu remold, que existe em todo o mundo. Ele custa menos, pois aproveita parte de um pneu usado e até colabora com o meio ambiente, pois o destino das carcaças é problema ecológico no mundo inteiro.

Entretanto, o pneu remolda é perigoso no Brasil, pois o Inmetro, ineficiente como sempre, foi conivente com as empresas de remoldagem e não exigiu, como em países do Primeiro Mundo, que seja mantido na lateral da carcaça o registro de uma informação da maior relevância para sua segurança.

Para fabricar um pneu remold, remove-se toda a camada de borracha e se aproveita apenas a carcaça do usado. Ao contrário do recapado ou recauchutado, no qual se aplica uma nova camada sobre a antiga.

O problema está nesta carcaça. Na Europa, por exemplo, a legislação exige que a operação de remoldagem conserve, na banda lateral, o registro das características originais da carcaça. Mas, no Brasil, o Inmetro (órgão governamental encarregado de certificar componentes de automóveis, entre outros) foi “convencido” pelas fábricas de pneus remold a desprezar essa exigência que onera o processo.

Ora, duas carcaças podem ter mesmas dimensões, receber uma nova camada de borracha e o “novo” pneu ser colocado para rodar num automóvel qualquer. O problema é que o projeto da carcaça considerava a função do veículo a ser equipado com o pneu. Então, ela pode ter sido projetada originalmente para equipar uma picape que suporta maiores pesos na caçamba porém desenvolve menores velocidades. Ou para um carro esportivo, bem mais leve, mas projetado para andar rapidamente. As medidas externas dos pneus podem ser as mesmas, mas as características das carcaças são completamente diferentes.

Então, se a operação de remoldagem no Brasil dispensa – graças a um vacilo do Inmetro – o registro na banda lateral das características originais da carcaça, o consumidor pode estar comprando dois pneus idênticos externamente, mas rigorosamente diferentes em sua estrutura. Uma carcaça pode ter sido projetada para um pneu que equipa uma pequena picape do tipo food truck e a outra para um esportivo de alto desempenho como um Porsche.

E o que ocorre se dois remolds com estas diferentes carcaças estiverem equipando o eixo dianteiro de um automóvel? No momento de uma freada de emergência ou numa curva apertada na estrada, a reação dos dois pneus – aparentemente idênticos –  será desigual e poderá provocar um sério acidente. E, lamentavelmente, o motorista que se sentia seguro e protegido com o pneu que contava com a certificação do Inmetro, percebeu, a duras penas, que havia uma falha essencial de segurança no processo de remoldagem.

Podem existir fábricas de pneus remoldados que se preocupam em selecionar carcaças de mesma origem antes de iniciar a operação. Mas, por não se exigir que se mantenha o registro, são grandes as chances de não se respeitar esse critério.

Pneu remold em motos

O Inmetro chegou, no passado, a regulamentar o uso de pneus remold em motos. Mas percebeu o absurdo da situação e acabou proibindo sua utilização.

Outra operação que requer cuidado é a ressulcagem. Pneus de veículos pesados como caminhões e ônibus podem ser do tipo “regroovable”, ou seja, quando estão ficando carecas, os sulcos da banda de rodagem permitem que sejam aprofundados mais alguns milímetros para voltar a rodar com segurança. Entretanto, é uma operação que só pode ser realizada se o pneu contiver a expressão regroovable.

Entretanto, existem borracharias no Brasil que decidem “ressulcar” pneus de automóveis, que definitivamente não permitem o aprofundamento dos sulcos. A operação é chamada de “frisagem” e coloca em risco a segurança do automóvel.

Pneus remanufaturados existem em todo o mundo para veículos leves, pesados e até para aviões. Custam menos que os novos e prolongam a vida útil de um material de difícil destinação quando se torna inservível. Mas os remold, no Brasil, não inspiram confiança.

Pneu remold não funciona no Brasil

SOBRE

9 Comentários

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  • Fernando Soares 6 de setembro de 2018

    É infinitamente melhor comprar um pneu novo de segunda linha (altimax, por exemplo) a comprar remold. Primeiro pq não pega balanceamento, segundo que duram menos, terceiro que a garantia é muito menor comparado a um novo ( 5 anos para o novo versus 3 meses ao remold). Sinceramente, a pessoa precisa ser muito desavisada para entrar nessa furada. Lembrem-se: o pneu é a única parte do carro em contato com o solo, portanto não economize.

  • Alexandre Soratto 5 de setembro de 2018

    O Inmetro estabeleceu requisitos mínimos de segurança para reformadores de pneus, o que representa o primeiro passo para a padronização destes serviços em todo o país.
    Com tempo e com a participação das partes interessadas, incluindo os bons jornalistas, todos os reformadores de pneus estarão em conformidade com as regras, e teremos pneus cada vez mais seguros.
    O exemplo dado (pneu de pick-up em porsche) é ridículo e demonstra o desconhecimento do comunicador.

  • William 5 de setembro de 2018

    Esses Pneus são muito, mas muito ruins! Comprei um carro com eles instalados, em menos de um ano de uso TODOS os quatro deformaram e romperam. Melhor um pneu Chinês ou Coreano barato que estes lixos.

  • Pércio Guimarães Schneider 4 de setembro de 2018

    Jornalista, quando mal informado (ou mal intencionado), é criador de fake news. A Portaria 554/2015 do Inmetro que regulamenta a reforma de pneus determina:
    Requisitos específicos para pneus reformados destinados a automóveis, camionetas, caminhonetes e seus rebocados.
    6.1 Marcações
    Cada unidade de pneu reformado deve apresentar as informações abaixo relacionadas, afixadas de forma indelével e legível, estampadas em alto relevo no pneu, ou através da aplicação de etiqueta vulcanizada, localizada de forma visível e legível, na lateral ou laterais.
    6.1.1 Marcação de identificação em ambos os flancos
    6.1.1.1 O pneu reformado deve conter a expressão “RECAUCHUTADO”, “RECAPADO” ou “REMOLDADO”, com altura mínima de 4,0 mm.
    6.1.1.2 O pneu reformado deve conter com altura mínima de 6,0 mm:
    a) a designação da dimensão do pneu, conforme indicado nas tabelasdispostas do Manual Técnico ALAPA;
    b) a capacidade de carga, de acordo com a Tabela 12 deste RTQ;
    c) o limite de velocidade, de acordo com a Tabela 7 deste RTQ.
    6.1.1.3O pneu reformado deve ser identificado com a palavra “REFORÇADO” com altura mínima de 6,0 mm, se o pneu a ser reformado indicar que a sua estrutura é reforçada.
    6.1.1.4 O pneu reformado deve conter a expressão “M+S”(ou “M&S”), quando se tratar de pneu para lama ou neve, com altura mínima de 4,0 mm.
    6.1.1.5 Deve ser raspado o Selo de Identificação da Conformidade anteriormente aposto.
    6.1.1.6O pneu reformado deve conter o Selo de Identificação da Conformidade.
    6.3 Indicadores do Índice de Carga
    6.3.1 O pneu reformado deve ser marcado com seu índice de carga. Este índice não deve ser inferior a 2 (dois) pontos de sua designação original, conforme a Tabela 12 deste RTQ.
    6.3.2 Não pode ser definido para o pneu reformado o índice de carga superior ao índice de carga de sua designação original.
    6.4 Indicadores do Índice de Velocidade
    6.4.1 O pneu reformado deve ser marcado com seu índice de velocidade. Este índice não pode ser inferior a 20% de sua designação original, conforme indicado na Tabela 7 deste RTQ.
    6.4.2 Deve ser utilizado arredondamento matemático para o valor mais próximo, para maior ou para menor, de acordo com a Tabela 7deste RTQ.
    6.4.3 Não pode ser definido para o pneu reformado o índice de velocidade superior ao índice de velocidade de sua designação original.

    • Cris 7 de setembro de 2018

      E quem fiscaliza isso?

      • Pércio Guimarães Schneider 10 de setembro de 2018

        Inmetro e Ipem, por exemplo

  • Paulo Matos 3 de setembro de 2018

    Penso que existem empresas mais criteriosas na seleção das carcaças e que se preocupam com a segurança dos usuários dos seus produtos. De qualquer forma existe os riscos citados no artigo mas, dependendo da forma de utilização do veiculo, uso urbano onde se roda em baixa velocidade, não teria qualquer problema considerando o diferencial de custo existente.

  • José A J Vital 3 de setembro de 2018

    E existem ainda pequenas empresas de remanufatura de pneus nas periferias, que não seguem qualquer regulamentação técnica . Onde as duas únicas ferramentas de verificação de qualidade são o ” Olhômetro e o Achômetro ” . Distribuem mensalmente milhares de pneus pras borracharias e seja o que Deus quiser.

    • Fabio 14 de novembro de 2018

      Compre de lojas idoneas e não em borracheiros. Ha lojas em sp que dão ate 5 anos de garantia em remoldes, ou cerca de 30mil km. A pspeneus é um exemplo.

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